domingo, 14 de janeiro de 2018

Rui Rio e a esquerda

Se a esquerda pensar que Rui Rio é mais do mesmo ou potencialmente inócuo, então equivoca-se gravemente. Não é o programa económico que ele vier a apresentar que fará diferença. Na verdade, a política económica, mais euro menos euro, vem da União Europeia. O que o pode diferenciar é a sua resistência aos poderes de facto, como aconteceu no Porto, e um certo ar de pessoa austera e rigorosa que os portugueses, apesar de não gostarem de praticar tais virtudes, apreciam muito nos dirigentes políticos. Se a esquerda continuar a enrolar-se em coisas como a lei do financiamento dos partidos e em práticas pouco austeras de gastos públicos pelos governantes e nepotismo (coisas tão ao gosto do PS), não se venha depois queixar da infidelidade do eleitorado. A relação com o dinheiro e os cargos públicos vai ser a porta por onde Rui Rio vai tentar entrar no poder.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Eleições na Catalunha

A situação na Catalunha, depois das eleições de 21 de Dezembro, está completamente embrulhada. Em número de deputados, os independentistas têm maioria absoluta (70 lugares num parlamento de 135). Contudo, os independentistas apenas têm 47,5% dos votos. Isto parece indicar que os não independentistas têm, em caso de um hipotético referendo, uma maioria garantida. Nem isso, porém, é claro. Os não independentistas somam 50,9% dos votos. Contudo, neste bloco estão contabilizados os 7,45% do CatComú-Podem, o Podemos catalão e os seus aliados, que parecem ser bastante esquivos. Nada garante que parte destes votos, num hipotético referendo, não se desloque para o independentismo. Em resumo, uma salsada das antigas, na qual o senhor Rajoy, com os seus tiques marialvas, sai maltratado. Não resolveu nenhum problema e talvez tenha criado alguns. O não independentismo deve ter atingido o seu pico no dia de hoje, a partir de agora o mais previsível é diminuir por falta de comparência. Do ponto de vista democrático, só um referendo legal poderá resolver a situação. Ora, para isso é necessário mexer na Constituição e na linguagem arcaica e quasi-falangista que transparece no corpo legal espanhol. Será que os fantasmas espanhóis o vão permitir?

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Polónia e Estado de direito

O que a Polónia aprovou é um ataque aos princípios fundamentais do Estado de direito. Por certo, não deve haver governante que não gostasse de controlar o aparelho judicial. Isso, porém, seria destruir não apenas o sistema democrático mas também o direito básico fundamental a um julgamento justo e imparcial. Seria trazer o inferno para a Terra. O que separa um Estado de direito de um Estado absoluto é, mais do que a existência do pluralismo político, a clara separação entre o poder executivo e o poder judicial. Perante a decisão polaca, vamos ter agora a possibilidade de averiguar, na prática, as crenças que norteiam as elites políticas europeias.

domingo, 17 de dezembro de 2017

Pancadinhas nas costas

Esta linguagem serve para quê? Todos nós temos o direito de julgar as agências de rating uma das dez pragas do Egipto. Pessoalmente, não lhes tenho particular estima. A questão, porém, é outra. De que me serve abominar com veemência e ardor - a líder do BE (ver aqui) é sempre veemente e ardorosa - essas terríveis entidades diabólicas, se depois a minha vidinha depende delas? Importante seria demonstrar que o país não depende do rating que essas agências malévolas lhe atribuem. Ora como o país parece que depende, como o BE e outros ainda não conseguiram explicar como podemos viver sem aquelas sentenças imorais que essas malditas górgonas se lembram de proferir a torto e a direito, o melhor é receber delas pancadinhas nas costas do que murros na cara.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Perdeu o faro

Será que António Costa perdeu o faro político que parecia ser a sua imagem de marca? Será que não passa de um adolescente que se entusiasma e diz qualquer coisa movido pela emoção? Não saberá ele, que anda há tanto tempo nisto, que qualquer palavra - ou até qualquer murmúrio - que saia da sua boca vai ser escrutinada até à exaustão? Por muitas razões que a economia lhe dê para rir e celebrar (até a Fitch o veio ajudar), ele, depois da devastação dos incêndios, terá de medir cada palavra que diz, cada expressão facial que apresenta. Um político não tem estados de alma. Um político que luta para manter o poder apresenta os estados de alma que os eleitores esperam dele. As coisas são o que são. Num ano em que morreram mais de cem pessoas em incêndios, devido aos quais o governo está sob forte escrutínio público, nem ao diabo lembraria vir dizer que 2017 foi um ano saboroso para o país. António Costa parece que ainda não percebeu uma coisa essencial para se manter no poder. Ele e o seu governo, em público, ou se mostram de luto, ou põem cara de enterro, ou fazem-se de mortos.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

A tradição de direita

Diz o doutor Rio: "O PSD não é um partido de direita nem é a direita, é um partido social-democrata e a social-democracia é ao centro, não é à direita nem à esquerda." Em primeiro lugar, Rui Rio está equivocado. A social-democracia sempre foi de esquerda. Que o antigo PPD se tenha dado o nome do PSD, isso não passou de um mero expediente. A social-democracia está ligada ao movimento operário e evoluiu de movimento revolucionário para movimento reformista, sem deixar de ter essa relação com o mundo do trabalho e dos sindicatos. Em segundo lugar, o centro pode ser conquistado sem necessidade de recorrer à tradição social-democrata. Em muitos países uma combinação de pensamento democrata-cristão e de pensamento liberal - por vezes, mesclado com pensamento conservador - tem tido capacidade de mobilizar o centro e fornecer alternativas de governo sólidas, muitas vezes mais atraentes para o eleitorado do que as alternativas social-democratas. Já era tempo em Portugal de nos deixarmos deste tipo de fogos de artifício. Portugal já tem demasiados partidos social-democratas (do PS ao PCP, passando pelo BE, todos têm programas de governação social-democratas). Não seria mau para a democracia que a direita tivesse alguma solidez ideológica. A cada um a sua tradição. E se a tradição da direita tem de ser inventada, ao menos que a invente fora do território da esquerda.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Veneno e sangue

Na decisão de transferir a embaixada dos EUA, em Israel, para Jerusalém, anunciada por Donald Trump, há duas coisas dignas de realce. Em primeiro lugar, o desdém por uma das virtudes políticas essenciais, a prudência. Em segundo lugar, o desprezo pelos sentimentos do mundo muçulmano, como se este fosse uma actor político menor ou mesmo inexistente. Menosprezar a prudência e dar razões para que o mundo muçulmano, sempre tão dividido, tenha uma causa comum significa o quê? Cada semente que é lançada no solo da história germina e acabará, mais tarde ou mais cedo, por ser árvore e dar frutos. Raramente, os frutos que nascem nessas árvores são doces. Por norma, são venenosos e sabem a sangue.